Entenda como o mau uso da floresta compromete a vida no planeta

Entenda como o mau uso da floresta compromete a vida no planeta

A crise ambiental global apressa a procura por soluções que permitam um estabilidade entre os recursos existentes no planeta e a existência da humanidade. Neste dia 21 de março, Dia Internacional das Florestas, pesquisadores alertam que as medidas adotadas pelo mundo, até o momento, ainda são insuficientes para que essa relação seja duradoura.

O pesquisador do Instituto Pátrio de Pesquisas da Amazônia (Inpa) Philip Fearnside recebeu o Prêmio Nobel da Tranquilidade em 2007 por pesquisas sobre as consequências das mudanças climáticas. Para ele, é necessário que o Brasil lidere essas iniciativas, não unicamente por possuir a maior suplente de biodiversidade de todo o mundo, mas também por ser o país que mais será atingido se a crise ambiental continuar em curso.

“Está tudo caminhando para ter menos floresta e mais aquecimento global, mesmo se o desmatamento for freado.”

Segundo Fearnside, o Brasil e o mundo dependem totalmente dos serviços ecossistêmicos prestados pelas florestas, que além de produzirem sombra, iguaria e oxigênio, também retêm gás carbônico, transportam chuva em secção do ciclo hídrico e resfriam o planeta.

O Nobel da Tranquilidade e pesquisador do Inpa Philip Fearnside – Rádio Pátrio/EBC

Para o Nobel da Tranquilidade, a forma porquê o aquecimento global afeta o planeta já pode ser observado em problemas reais. Um exemplo é a interrupção dos chamados “rios voadores”,  que são os fluxos de vapor que têm origem na Floresta Amazônica e que são transportados pela atmosfera para outros lugares.

Algumas pesquisas que Fearnside realizou, indicam que isso vem acontecendo com maior frequência nos últimos anos. “Tem que lembrar que, em 2014, São Paulo quase ficou sem chuva até para tomar e, depois, em 2021 houve uma enorme seca naquela região do país, portanto, o clima lá já mudou e deve piorar mais ainda”.

Iniciativas porquê a redução do desmatamento na Amazônia e em outros biomas brasileiros são caminhos necessários, aponta o pesquisador, mas somente isso não é capaz de evitar que as reservas naturais cheguem a um ponto de não retorno.

“Todas a floresta precisa ser convertida em unidade de conservação, que pode ser de uso sustentável pela população que vive dentro dela, mas não pode ser APA [área de proteção ambiental], porque nesse caso é difícil controlar quando abre para uso pessoal e desmatamento legalizado.”

Ameaço

As políticas públicas também precisam convergir para a preservação das florestas, afirma o pesquisador, ao criticar projetos porquê o de recuperação da BR-319, que liga Manaus a Porto Velho. O projeto prevê a sinceridade de novas estradas, porquê a AM-366, em uma região intacta de floresta, a oeste do Rio Purus, no estado do Amazonas.

Com a inclusão da proposta ao Projecto de Desenvolvimento Regional da Amazônia (PRDA) para 2024-2027 pelo governo federalista a ameaço ganhou forma de projeto de lei (4.994/2023), no Congresso Pátrio.

O pesquisador explica que se for ratificado, além da sinceridade de mais cobertura verdejante, toda a região ficará suscetível a ação de grileiros, pecuaristas, agricultores e madeireiros, que não se interessam atualmente pela extensão por razão da dificuldade de chegada.

Essa parcela de floresta também inclui a maior secção da Amazônia de terras públicas não designadas, o que significa uma extensão mais desprotegida, segundo pesquisa divulgada pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), em fevereiro deste ano.

Destinação

Desmatamento do concentrado aumenta o risco de colapso hídrico – Adriano Gambarini/WWF Brasil/Divulgação

O Brasil possui mais de 55% de seu território enroupado por florestas dos seis biomas: Amazônia, Tapado, Mata Atlântica, Caatinga, Pampa e Pantanal. Desse totalidade, 327,3 milhões de hectares são de florestas públicas, ou seja, 38,4% de todo o território, segundo a última atualização do Cadastro Pátrio de Florestas Públicas, de junho de 2023.

De combinação com o estudo do Ipam, 57,5 milhões de hectares – que equivale ao tamanho da Espanha – nunca foram designados, seja para unidade de conservação, ou para outras finalidades, porquê terras indígenas ou regularização fundiária, conforme previsto na Lei de Gestão de Florestas.

“Hoje, mais da metade do desmatamento na Amazônia acontece em terreno pública, ou seja, é espoliação de patrimônio público e o possessor é o povo brasiliano. A morosidade em destinação, seja pelos governos federais ou pelos governos de estado, permite que a grilagem invada essas áreas e transforme, em grande proporção, em pastagens clandestinas na Amazônia, principalmente nos últimos cinco anos”, afirma Paulo Moutinho, pesquisador do Ipam que participou da pesquisa.

Paulo Moutinho, pesquisador do Ipam – Registro pessoal

O estudo utilizou imagens de satélites do Instituto Pátrio de Pesquisas Espaciais (Inpe), sobrepondo as áreas de desmatamento identificadas às bases de dados cartográficas das florestas públicas não destinadas.

“Também por estudo de satélite, a gente consegue seguir que, em seguida o desmatamento dessas florestas, 70% permanecem porquê pastagem e 20% são praticamente abandonadas.”

Outra lanço do estudo avaliou porquê se dá a dinâmica da invasão e concluiu que a prática de depositar documentos em caixa de grilos para que aparentassem envelhecimento – daí o nome grilagem – foi substituída atualmente pelo Cadastro Ambiental Rústico. No entanto, o documento autodeclaratório criado com a finalidade de regularização ambiental, passou a ser usado porquê documento fundiário de maneira fraudulenta.

Ciclo

Em todos os casos, os pesquisadores são unânimes em considerar que o mau uso das florestas atinge diretamente os seres humanos, seja pela interrupção dos serviços ecossistêmicos, seja pela subtracção dos ativos ambientais, que utilizados de forma sustentável podem gerar renda e contribuir com a subtracção dos efeitos da crise climática.

“Tem o estoque de carbono que está retido na floresta, inclusive no solo em ordinário da floresta, que pode ser emitido por razão do desmatamento, ou por mudanças climáticas, ou incêndios florestais e essa é a chave para a crise global, porque esse estoque enorme de CO2 sendo liberado para o ar, em poucos anos, pode vir a ser a pinga d’chuva para o clima global compreender o ponto de não retorno”, explica o pesquisador, ao concluir: 

“Ou seja, [a temperatura] cada vez mais quente, tem mais incêndios florestais, esquenta mais o solo, derrete as calotas polares e tudo mais, até trespassar do controle humano”

Governo

Em setembro de 2023, o governo federalista retomou a Câmara Técnica de Destinação e Regularização Fundiária de Terras Públicas Federais Rurais, com o objetivo de promover a governança responsável das terras públicas federais. De caráter deliberativo sobre a destinação de terras públicas, a câmara é coordenada pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário e Lavoura Familiar (MDA) e tem a participação dos ministérios do Meio Envolvente e dos Povos Indígenas.

Nos últimos meses algumas florestas públicas foram destinadas ao usufruto de povos originários, ou para estudos de destinação pelo Serviço Florestal Brasílio.

A reportagem da Sucursal Brasil contactou o MDA e o MMA, sobre o curso dessas demandas, mas até a publicação da material não houve resposta.

Nascente: Sucursal Brasil