Filme revisita história do Brasil a partir da trajetória de PC Farias

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Um personagem que chegou às alturas do poder encoberto pelas sombras é o tema do documentário Morcego Preto. O filme, que entra em papeleta nesta quinta-feira (21), reconta a história de Paulo César Farias, empresário e tesoureiro da campanha que levou Fernando Collor de Mello à Presidência da República em 1989.

“Ele não é uma figura pública. O PC se torna público por meio da CPI [Comissão Parlamentar de Inquérito]. Ninguém da população em universal sabia quem era PC Farias, o que fazia, o que falava, o que comia, o que pensava”, comenta Cleisson Vidal, que dirige o longa-metragem ao lado de Chaim Litewski.

Impeachment

Collor foi o primeiro presidente eleito por votação direta desde o golpe que instaurou a ditadura militar em 1964. O empresário alagoano deixaria o Palácio do Planalto posteriormente suportar processo de impeachment no Congresso Vernáculo, no segundo ano de governo, em 1992. A perda do procuração ocorreu  devido a escândalos de devassidão, em que PC, indigitado uma vez que figura mediano, foi investigado em CPI ao longo daquele mesmo ano.

“É um período muito turbulento”, diz o diretor, lembrando que enquanto o Brasil vivia a redemocratização, o mundo encarava o término da União Soviética e a polarização da Guerra Fria. “É um período de transição no mundo”, enfatiza.

“É uma coisa de olhar a história de novo, entender quem são essas figuras, esses personagens, qual o papel que foi oferecido a eles e o que de indumento representaram”, explica Vidal sobre as motivações do filme, que tem depoimentos de figuras-chave à era, uma vez que o próprio Collor e o portanto líder do governo no Congresso, Renan Calheiros. “A gente tinha o compromisso de tentar falar com essas pessoas numa perspectiva histórica, já com manifesto distanciamento, com a vida delas em outro momento”, acrescenta o diretor.

Vilão

A subida de Collor ao poder fez com que PC também chegasse às alturas em influência na política pátrio. Um elemento que ilustra material e simbolicamente esse momento é o jato pessoal adquirido pelo empresário. A avião, batizada por ele de Morcego Preto, foi intuito de investigações e especulações até depois de sua morte.

A construção de PC uma vez que vilão é um dos pontos explorados pelo filme. Os depoimentos mostram que a personificação dos escândalos no tesoureiro misturava conveniência e preconceito. Até a figura física do empresário teria sido apropriada para essa construção.

Careca, com bigode definido uma vez que “grande demais” por um dos entrevistados, com palato por roupas extravagantes, além da origem nordestina, são elementos citados uma vez que propícios para conceber essa imagem. “Ali você tinha o interesse de gerar uma imagem negativa daquela pessoa. E, por sua vez, atingir o presidente da República. Logo, onde você pega? Você pega nos estereótipos”, diz Vidal.

Em contraponto, o filme traz elementos menos lembrados a reverência do tesoureiro, apresentado por diversas vezes uma vez que pessoa simpática, culta e que valorizava os momentos em família. Faltam, no entanto, gravações em que PC teve a oportunidade de falar sobre si mesmo, por isso o registro da CPI ganha preço.

“Ele pede a termo ao Congresso e fala: ‘deixa eu recontar a minha história’. Porque, até portanto, a história dele estava sendo contada pelos jornais e revistas. Ali, de indumento, ele se torna uma figura pública. Você não tem registro do PC antes, de áudio ou filmagem. Por isso que a gente entende que aquilo ali seja a melhor peça sobre o PC”, explica o diretor sobre a preço do registro.

Religiosidade

Um paisagem íntimo que emerge e se mistura à vida pública do tesoureiro é a religiosidade. Mãe Mirian, uma das matriarcas das religiões de matriz africana de Alagoas, é uma das entrevistadas para o filme. Para Vidal, a ialorixá antecipou o tramontana trágico que esperava PC. “Ela acerta tudo que fala. Os búzios dela acertam tudo. Ela contou ao PC algumas coisas, ou intuiu ou direcionou”, comenta o diretor. “A esposa do PC é uma mulher muito espiritualizada. São esses elementos ricos que tornam as figuras dos personagens brasileiros tão complexas”, complementa.

A própria natureza da atividade política, na visão de Vidal, acaba atraindo a premência de ferramentas que vão além do racional. “Política é uma coisa muito ocasião, de muita virilidade, não dá para encarregar só nas pesquisas de mercado. Também precisa da proteção do não visível, da virilidade cósmica humana que se traduz por meio da religião”, afirma.

Fuga e morte

Em seguida a saída de Collor da Presidência, PC foge do país. O documentário mostra que durante o período em que esteve na clandestinidade no exterior, o empresário teve a ajuda de autoridades estrangeiras em alguns países. Ao retornar, passa qualquer tempo na prisão.

Já em liberdade, em junho de 1996, PC Farias é assassinado junto com a namorada Suzana Marcolino. A primeira versão é de que ela teria matado o empresário e se suicidado depois. Exames periciais posteriores descartam a hipótese de suicídio. Quatro policiais militares que faziam a segurança da moradia em que o parelha foi morto chegaram a ser julgados pelo transgressão em 2013, sendo absolvidos ao final.

Natividade: Escritório Brasil