Mostra em São Paulo percorre trajetória da fotógrafa Claudia Andujar

Mostra em São Paulo percorre trajetória da fotógrafa Claudia Andujar

Começa nesta quarta-feira (3), no Itaú Cultural de São Paulo, uma exposição sobre as experimentações e a trajetória da artista e fotógrafa Claudia Andujar. As imagens remontam à curso da fotógrafa no fotojornalismo da revista Veras, passando pelo fortalecimento da retrato porquê arte, além do trabalho de registro e denúncia de violação de direitos feito junto aos indígenas yanomami.

O curador da mostra Claudia Andujar – cosmovisão, Eder Chiodetto, define a artista porquê filha “legítima” da geração de 1968.

Mostra gratuita começa nesta quarta-feira, 3 de abril – Claudia Andujar/divulgação

“É uma geração que vai mudar bastante o comportamento. E evidente que tudo isso impactou muito o campo da arte. É um momento em que os artistas estão tentando trasladar a arte de novo – porquê tinha realizado no surrealismo – nessa viradela dos anos 60 para os anos 70, com a pop art, etc. Ela é filha legítima desse movimento.”

As séries de fotografias expostas revelam porquê Claudia tensiona a linguagem fotográfica, forçando os limites da retrato tradicional para fazer uma representação mais legítima daquilo que ela almejava.

“Essa exposição é para surpreender, traz uma Cláudia que poucas pessoas conhecem. Eu mostro todo esse trajeto das experimentações dela ao longo da curso, ela manipulando a retrato de todo jeito verosímil, ou seja, expandindo o repertório narrativo da retrato.”

As 135 obras estão divididas em 11 séries, expostas em dois andares do espaço Itaú Cultural. Entre as experimentações, Claudia utilizava filmes fotográficos infravermelhos, cromos riscados, filtros monocromáticos, imagens refotografadas com distorções e mutações de luzes e cores, justaposições e duplas exposições.

Ao longo da curso, Claudia revisita seu montão e trabalha as imagens de congraçamento com as intenções de determinado momento ou projeto. “É uma artista que nunca vai pensar a retrato que sai da câmera porquê um tanto pronto. Em universal, depois que fotografa, ela vai fazer outras etapas de processamento, até chegar onde ela precisa.”

Logo no início da mostra, o público vai saber duas séries de fotografias que apresentam uma secção menos conhecida da sua produção, em trabalho para a revista Veras. Uma delas é um conjunto de fotografias feitas para reportagem sobre homossexualidade, na dezena de 60, que acabou censurada na estação.

“Essa daqui era para uma material que saiu com o título ‘homossexualismo’, ainda pensando porquê patologia. É 1967 isso, sob ditadura militar. E aí a reportagem sai só com o texto e as fotos são vetadas pela exprobação”, lembrou o curador.

Entre as imagens, estão duas mãos entrelaçadas, pessoas desfocadas e o uso da sombra em que se revela mais as silhuetas do que as identidades, além de uma cantora se apresentando.

“Dentro do viés da exposição, mesmo dentro de uma reportagem, que seria um documental tradicional, um fotojornalismo, ela já tem um jogo de cintura enorme para usar os desfoques, ela usa muito muito a sombra, os ângulos.”

Chiodetto relata que, no final do ano pretérito, essas mesmas fotografias foram expostas no museu de etnografia em Budapeste, na Hungria, que está sob o comando de um governo de extrema-direita.

“Essas fotos estavam num espaço lá. O ministro da Cultura da Hungria mandou parar a exposição, vetar, colocar isso tudo em uma sala fechada, proibir a ingresso de menores de 18 anos e demitiu o diretor do museu por justificação disso. Imagina, quase 60 anos depois, umas fotos dessas que você está vendo [aqui]”, contou.

Curadoria da mostra Claudia Andujar – cosmovisão é de Eder Chiodetto – Claudia Andujar/divulgação

Também extrapolando a linguagem tradicional, a segunda série foi feita a pedido da revista Veras para simbolizar pesadelos. “E é maravilhoso, ela fotografa o gato dela, uma estátua que ela tinha, uma boneca. Tudo isso cá dentro do apartamento dela. Só que ela vai fazer fusão de imagem, uso de sombra, cá é uma técnica que ‘frita’ a gelatina do negativo e se cria esse sonido [na imagem], para chegar na representação do pesadelo, que é um tanto não visível”, conta o curador.

Yanomami

Ainda na revista, ela faz os primeiros registros dos yanomami, na dezena de 1970, uma estação em que a etnia estava sendo submetida a um contato extrínseco mais intenso no contexto dos projetos de desenvolvimento do período da ditadura militar.

“Ela começa a perceber a perceptibilidade dos yanomami no trato com a natureza e a espiritualidade deles, que é muito elevada, ela percebe a sofisticação desse povo.”

“Nessa viagem, ela tem o primeiro contato com os yanomami, que vai mudar a vida dela por completo de novo”, conta Chiodetto, acrescentando que a artista “faz uma relação análoga com o que aconteceu com os judeus: um grupo hegemônico atacando um grupo minoritário”.

Nascida na Suíça em 1931, de família judia, ela e a mãe fugiram do nazismo na Europa depois verem grande secção da família ser levada para campos de concentração e assassinada.

Claudia faz os primeiros registros dos yanomami na dezena de 1970 – Claudia Andujar/divulgação

Claudia ficou muito próxima dos yanomami e, em 1976, ela se desloca até a lugarejo. Ela atravessa de São Paulo até Roraima em 13 dias, em viagem com um fusca preto. A mostra apresenta uma série de retratos de indígenas, com as cores representando o virente da mata e o azul do firmamento, aponta o curador.

Outro conjunto de fotografias, já em outro ponto da mostra, ilustra o sofrimento dos yanomami diante das invasões de seu território: “a essa série ela dá o nome de Malencontro, pós contato dos indígenas com os brancos, a invasão do mina, a tragédia que se arrasta até hoje. Logo, ela volta para as imagens de registro dela e, de novo, vai refotografar para fabricar uma atmosfera, uma tensão de porquê esse ‘malencontro’ estava sendo péssimo para os indígenas.”

As imagens correspondem a fotografias registradas na dezena de 1970 e submetidas a técnicas de processamento para uma exposição feita no Museu de Arte de São Paulo (Masp), em 1989, intitulada Genocídio do yanomami: morte do Brasil.

“Já era um manifesto contundente. Ela pega as imagens, ilumina com luz de vela e lucivelo e fotografa. Para ter esse tom dourado, que é o tom do ouro, da procura do ouro pelo varão branco que está garimpando e jogando mercúrio na chuva, levando muitos indígenas à morte.”

Novo trabalho

Exposição termina no final de junho – Claudia Andujar/divulgação

Aos 92 anos, Claudia Andujar faz uma releitura de uma série sua, em parceria com Eder Chiodetto, principalmente para esta exposição. Durante a viagem que fez a bordo do seu fusca preto, junto ao propagandista Carlo Zacquini, ao encontro dos yanomami, ela fez um quotidiano de viagem por meio de fotografias, sem trespassar do sege. “Ela fotografa e sempre tem a janelinha do fusca, a janela de trás, as laterais, da frente, porquê se fosse um outro visor. É uma série em preto e branco.”

Em alguns trabalhos, no pretérito, Andujar fez sobreposição de acrílicos coloridos nas fotografias. E foi isso que fizeram, desta vez, na série de imagens de sua viagem. “Levei a série fotográfica ampliada [até ela]. Para simular o acrílico, levei um monte de celofane sarapintado das cores que ela costumava usar e lá ela falava ‘vamos tentar cá’, eu cortava ali com a tesoura na hora, enfim rolou. Ela fez dez peças novas”, contou o curador.

O nome da série é O voo de Watupari, o que remete à chegada dela ao território indígena. “Quando ela chega com o fusca na lugarejo, os indígenas cercam ela, porque, primeiro, eles quase nunca viam um sege, era uma coisa muito rara. E eles começam a rir um monte e falam ‘mas, Claudia, você veio cá a bordo de um urubu, de um watupari?’”, relatou. Watupari é porquê os yanomami chamam o urubu.

Principal trabalho

Sonhos Yanomami, a série mais importante da artista, segundo Chiodetto, materializa em imagens o universo da espiritualidade daqueles indígenas a partir das experimentações da artista. Em um de seus rituais, os indígenas entram em transe, têm miragens e depois relatam as visões que tiveram. “Claudia ficava encantada com as imagens que eles descreviam verbalmente e ficava incrédula que ela não podia transcrever isso em imagem. Era uma frustração dela.”

Décadas depois, em 2002, novamente revisitando seu montão, ela sobrepõe sem querer imagens registradas em cromo. “E portanto ela começa a fazer isso propositalmente, e aí tem um êxtase, uma catarse, que vai gerar essa série cá que se labareda Sonhos Yanomami. Antes de mostrar para qualquer pessoa, ela manda para a lugarejo e pergunta se isso tem alguma relação com essas imagens que eles descrevem quando voltam do transe. E eles ficaram enlouquecidos em porquê ela conseguiu isso”, contou Chiodetto.

“É a série mais importante dela: quando ela conseguiu materializar isso, fundindo o corpo dos indígenas, com a paisagem, com o firmamento, com o rio, com as árvores, com as rochas. Porque é muito da crença yanomami, de que rocha e fêmur e outras substâncias são feitas do mesmo corpúsculo e tudo isso é uma vontade cósmica e ela consegue sintetizar essa série Sonhos”, contou.

A mostra fica em papeleta até 30 de junho, no Itaú Cultural, localizado na Avenida Paulista, 149. Visitação ocorre de terça-feira a sábado, das 11h às 20h; domingos e feriados, das 11h às 19h, com ingresso gratuita.

Nascente: Dependência Brasil